segunda-feira, 14 de março de 2011

Depois do 1º Ato - Diálogo.


- Eu me arrependo... Você se arrepende?
- Eu? Hahaha... Eu não me arrependo.
- Quer dizer que se pudesse voltar atrás, o faria novamente?
- Não só o faria novamente se voltasse o tempo, como tenho vontade de fazê-lo novamente a qualquer instante. Faria agora...
- Teria coragem?
- Não percebe que não se trata mais de coragem, mas sim de vontade!
- Como podes ter vontade de fazê-lo mais uma vez? Eu não faria de novo, jamais. Estou com vergonha de mim mesmo por ter feito da primeira vez. Agora sinto medo...
- Eu sabia que tu falarias isso e que se arrependeria. Percebi que você tremia e estava disposto a desistir. Se tivesse que fazer sozinho, não tenho dúvidas que tu deixarias de fazer.
- Como eu poderia não estar com medo? Como eu não poderia pensar em desistir? É claro que pensei em desistir, e me arrependo de não ter desistido... Como eu pude fazer o que fiz?
- Fizemos! E já está feito! Precisávamos fazer.
- Precisávamos fazer? Precisávamos fazer porque nos deixamos convencer de que deveria ser feito.
- ‘Nos deixamos convencer’? Nós acreditamos no que fizemos! Acima de tudo acreditamos.
- Disse bem... Acreditamos! Mas, não tenho mais certeza se continuo acreditando...
- Vais jogar fora toda a nossa dedicação? Sabes bem quantas noites em claro passamos lendo, calculando, sonhando?
- Talvez estejamos errados...
- Errados? ... Me passe o isqueiro. [acende o cigarro] Não esqueça que foi você quem despertou minhas vontades.
- Não esqueço. Mas confesso que com o decorrer de todo o ‘plano’, eu deixe-me influenciar pelas tuas interpretações, e, de fato, tu me interpretastes mal algumas vezes. De modo que mudamos o rumo que eu um dia imaginei.
- Te interpretei mal?
- Sim, e...
- Calma, calma! Preste atenção no que você está dizendo! Não tente agora arranjar uma desculpa prá você se sentir mais aliviado. Fizemos isso juntos! Eu tenho tanta culpa quanto você! E o sentido de tudo que fizemos, resultaria em não sentir culpa alguma. Não percebe que está agindo contrariamente a tudo que seguimos desde a chuva de dezembro?
- Sim, mas... Como eu disse, talvez estejamos errados acerca de tudo que seguimos desde aquele dia. Talvez tenhamos feito algo muito errado, independente do que seguimos ou acreditamos.
- Não use mais o tempo passado! Seguimos e ainda acreditamos
- Eu não sei...
- Até quinze minutos atrás você seguia e acreditava! Não queira negar tudo agora!
- Acho que deixei de acreditar nisso tudo há muito tempo...
- E por que o fez então?
- Medo talvez.
­- Medo?
- Você sabe tanto quanto eu que isso vai muito além de eu e você.
- Sei. E você soube disso antes de mim. Não te esqueça que foi você quem provocou o entusiasmo em mim...
­- Quem está querendo colocar a culpa em alguém agora?
­- Eu não estou colocando a culpa em ninguém! Tu me mostrastes um direção e foi de minha vontade segui-la. E como eu lhe disse NÃO ME ARREPENDO!
­- Esse teu não se arrepender que me causa medo. Desconforto por imaginar os dias que virão... Tu me disseste que tem vontade de fazer mais uma vez...
- Mais uma, ou quantas vezes forem necessárias!
- Acho que não devemos continuar... E se deixamos rastros?
- Não deixamos rastro algum! Sabes bem disso. Trate de te acalmar!
- Como vou me acalmar? Eu vi todos os passos que ela dera... Pode ser que ela não tivesse escolha...
­- Ela tinha outras escolhas! Lembra quando me disse que todos temos escolhas, somos responsáveis pelos nossos caminhos...
- E o que nos dá o direito de interferir nas escolhas alheias, dizer se valem à pena ou não?
- Eu não acredito que estou ouvindo isso de ti! Vai queimar tudo o que lera?
- Não sei, não sei. Eu estou confuso agora, como jamais estivera.
- Isso são lágrimas?
- As mais tristes que um dia de mim saíram... Tu deverias me matar... Tu não, ela deveria!
- Acalma-te! Tenho certeza que se ela pudesse, te mataria. Por isso fizemos o que tinha de ser feito! Fizemos o que tinha de ser feito! Acalma-te companheiro, sabes que ainda temos muito o que fazer...


domingo, 13 de março de 2011

"[...] Ali estava o vento, escorrendo pela parede, derretendo tijolos enquanto as pernas se aqueciam e delirava o coração. O vidro da janela quebrava, mesmo parecendo intacto! Cores com formas de flores misturavam-se com os tijolos derretidos. O casaco com o aconchego do veludo mantinha a parede em pé, firme... Os passos estavam longe, e os pés perto. "

Vê.

Folhas secas contornavam o gramado, transformando-o em um pitoresco tapete. Nos vários tons de azul que coloriam o céu, dedos delicadamente lançavam no vento, o desenho das nuvens. Assim são certas tardes. Tardes em que todo o caos que movimenta os poros humanos vai-se embora; e se fica a sós com o próprio caos, agora calmo.
O corpo então, mistura-se às folhas secas como se fizesse parte delas. E, junto com elas também se seca. Retira o suor do chão, o joga no ar. 
Flutua - o ar.

A-zul.


Cortei os cabelos e o rosto pintei de azul. Para então me disfarçar de abóbora. Mas disseram-me que a abóbora é laranja e não tem cabelo algum. Não entenderam quando eu disse que a abóbora era algo alegórico e volante, que me levava para outro lugar. Assim, procuraram apagar meu azul tentando me transformar em mais um. Mas o meu saldo é negativo e meu bilhete, não tem prêmio algum. O meu azul não sai da pele, ele se estende pelo céu. Meus dedos tem remendos, de descascar a pele... A minha pele com tons azuis. Afinal, o sol queima mesmo na sombra.

sábado, 12 de março de 2011

Leveza do querer.


Desabotoava a camisa arrancando com os dentes os botões, cuspindo-os em qualquer lugar... Pelo chão, rolavam entre tapetes e assoalho, de tal forma, que era difícil de imaginar o quão longa seria a procura para uni-los todos novamente.
Certamente, se misturariam com a sujeira escondida entre os móveis, longe dos olhos.
As mãos tocavam suavemente a pele já fria.
O desejo de arrancar não só a camisa, mas também, pele e ossos fazia-se presente. O pretérito era perfeito e o presente inteiro.
Na boca, aos poucos o gosto forte de canela foi sendo substituído pelo gosto do desejo do intocável... Era como sugar dos próprios dedos o segredo do inferno escondido, e transformá-lo em céu...
Tão céu quanto a cor do seu peito debaixo da camisa, que era feita de tecido pesado, apropriada para esconder as marcas do coração. Entretanto, tecido algum esconde as marcas que os olhos transparecem... E... por três minutos o escondido apareceu. Apareceu em si bemol sustentado pelo medo e descaso. Querendo ser mesmo descaso, mas se perdendo no concreto sem descanso. Firme, fixo, forte. Com dureza e pobreza... Fome de querer sem querer. Mas queria.
Não poderia negar o tecido da camisa rasgada morrendo aos poucos no chão. Perdendo o calor da pele que se roia no meio das unhas... Frias... As marcas eram visíveis. Saiam do coração e percorriam o corpo todo.
Queria. Fazia. Mesmo que fosse com as próprias mãos. Mesmo que precisasse arrancar os próprios dentes. E assim faria na corrida da noite.
Passos parados. Atos fechados. Porta quebrada... Podia-se ver tudo do corredor! Mas isso não importava. Não haveria outro alguém para ver, além das molduras nas paredes. Quietas. Observando cuidadosamente em quase silêncio, cochichando... Pura inveja de estar preso naquele quadrado sustentado pela parede. O que fariam a não ser observar e falar? Poderiam viver? Reviver, diria. Foram congelados no passado, que se fossem aquecidas para o gelo derreter, só lhes restaria lembranças para reviver. Nada saberiam do agora... Por isso não se importava com os cochichos dos quadros. Deixem que falem!
E ouviam gritos.
Até o céu se assustava... Trovões saindo pela janela iluminavam os quartos alheios, encontrando corpos.
Passos parados. Mente compartilhada. Gritos na madrugada. Todas as veias dilaceradas... O sangue inundava o chão indo de encontro aos botões... A camisa foi costurada, a alma lavada – levada... Sustentada.   

sábado, 23 de outubro de 2010

Provoque!



Atire em ti mesmo. Provoque a dor e sinta a vida aclamando para ser ouvida. Veja tuas células morrendo e lhes ofereça não só proteína. Injete amor nos teus dias, transponha sal na tua carne. Ofereça teus ossos ao vento e esqueça-te de todos os lamentos. Transpareça o movimento e deixe-se perfurar. Penetre as mãos na areia e delire com o gozo no ar. Permita-se não respirar e continue a sonhar, viver, amar.
Coma teus braços e engasgue-te de ti. Vomite tuas veias e mude o movimento do teu sangue. Retire dos teus rins toda a estagnação. Urine teus templos e construa sem nada esperar. Dos teus pés tire notas, compunha com violinos sons para tua órbita ocular.
Atire em ti mesmo e dê vida ao coração. Mostre ao teu sono o que fazes antes de deitar. Deite-se com teus anjos para que teus demônios possam se perpetuar. Engula tua língua e obrigue teus ouvidos a falar. Mostre tua voz ao vento e não queira nenhum altar. Deixe as paredes do lado de fora e, do universo faça teu lar. Atinja teus sofrimentos e delibere o que há de falar. Escreva nos dentes a retórica de se apaixonar. Do cálcio faça o transpirar, retirar. Mastigue os cercados e as flores, permita-se o transparecer dos amores, e cuspa o que há de voltar. Arranque as próprias feridas, obrigue-as a cicatrizar. Desmembre toda essa casca que envolve o teu trabalhar. Queira uma nova partida, moa tuas unhas e sopre-as no campo do mar. Faça um cigarro do teu DNA, encha teus pulmões com todo o teu pensar. Queime as páginas que te impedem de dançar, pule aquele passo guardado para o casar.  Compartilhe com teus ouvidos tudo o que está a faltar no falar. Acrescente uma mescla de seguir no parar. Siga parando para observar.
Destrua a ti mesmo e se reconstrua com um piscar. Quantos anos vai fazer durar? Morra sem pensar em ressuscitar. Ressuscite sem deixar de respirar. Respire sem pensar em parar; pare, sem perceber o respirar. Olhe para ti e deixe-se olhar. Atire em ti sem sangue algum jorrar...
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É fácil dizer que as desigualdades sociais sempre existiram, e em seguida cruzar os braços em frente a TV, sem nada fazer. Enquanto isso, uma criança morre de fome no mundo a cada oito segundos, levando os sonhos que você se quer, permite-se ter. 
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domingo, 17 de outubro de 2010

Algodão doce?


Poderia trazer-te o vento, e com ele todo o sentimento que as nuvens explodem, solitárias no ar. A chuva é o seu choro, aclamando para ser ouvida. Contudo, nos esquivamos das gotas despejadas no ar. O guarda-chuva faz com que os raios mostrem a fria dor das nuvens. E não há dor maior do que a dor das nuvens... Mal entendidas...
Como se alegram quando nos deitamos e, suavemente, com nossos dedos no ar, as desenhamos. Trazemos forma ao branco puro que flutua, como algodão doce.
 Como é lindo o seu riso quando elevamos nossos olhos ao céu, e não as deixamos passar despercebidas.
Como se sentem abraçadas, consoladas, quando abrimos nossos braços e sentimos o seu choro.
Como gostam de conversar e sorrir, quando nos permitem flutuar com elas...
Como é difícil ver as nuvens e deixar de ver a nós mesmos. E, como são solidárias quando nos vêem na solidão. Nos oferecem companhia, nos mostram a alegria... [...]
Como dói ao vento, tentar mostrar o movimento das nuvens, aos olhos que não o vê.
Como é difícil ver o vento, e tentar mostrá-lo á olhos alheios... Mais difícil ainda é mostrar o coração das nuvens, aos corações que só sentem o próprio pulsar...
Como é difícil controlar o próprio pulsar, quando as mãos tremem, de modo que o parar de respirar pudesse acontecer a qualquer instante, mesclando a imensa vontade de viver ainda mais...
Ah... Se não fossem as nuvens para acalmar, como o vasto azul do céu acabaria por nos cegar...
Como podes ficar no mesmo lugar, com tantas nuvens dispostas a te carregar? Com tantos universos prá desvendar? [...]
Deixe-se flutuar... Mas não se deixe levar- amar.

Pétalas de gelo.

Não me convém conter palavras por medo. Embora as tempestades de verão atrapalhem as tardes de sol, são fundamentais no crescimento das flores da primavera. E eu, eu gosto de primaveras com muitas flores, cores, cheiros e sabores. Resgatar delas toda a essência que o movimento precisa e converter em passos.
Passos que o coração dá sem perceber, no meio das tempestades de verão. E que só são sentidos no florescer da primavera.
Primavera que pode aparecer no meio do inverno ou, em momento algum. A questão é cultivar serenamente as flores. Pois, elas não nascem do dia para a noite. E quando assim se fazem, acabam por murchar rapidamente. O gosto se vai e nem mesmo a cor é resgatada.
Que cor tem tuas flores? Que cheiro tem tua pele ao roçar nas cores? [...]
Os dizeres nas tempestades fortalecem as flores das primaveras. Flores que podem permanecer radiantes nos mais rigorosos invernos. Podem trazer risos e enxugar as lágrimas...
Não só de beijos vivem os amores. Não é só de calor que se faz o verão. As estações se condensam na pele e moldam a vida. Fazem do riso a harmonia do entardecer. Do choro a vontade de viver. E, das flores que um dia  permitiram viver, acabam por deixar-nos morrer. Entretanto, mesmo não vivendo com as flores, elas trazem o morrer, pelo viver na ausência delas. 
[...] Flores, cheiros e sabores que o coração insiste em querer, e a pele em transparecer...

Cigarro.

De minha parte é puro amor. Mas da dele, é o mais profundo sadismo. [...]


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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sem canto, ali.


O monstro costurava teus olhos e comia-te o coração. Fazia-te em mil pedaços e tu nada sentias. Ignorava, se quer ouvia. Que dirá veria. Teus olhos só filtravam teu andar, o som da rua passava despercebido entre teu nariz; que contentava-se com o dançar dos pêlos de outro alguém. O monstro lhe conduzia. E tu, na maior insensatez seguia...
Olhos costurados nada viam além da rotina. Teu coração palpitava longe de ti, mesmo assim pensava que o sentia. Tuas mãos mutiladas nada despiam, apenas carimbavam com a mesma tinta azul, que para ti cheiro algum tinha. Teus pés tortos procuravam sempre a direita; seguindo o mesmo caminho.
O mostro lhe devorava aos poucos e tu ainda prazer sentia. Unhas sujas de esmalte se enchiam, disfarçavam a agonia. A gravata enforcava os dias e teu sangue ainda assim corria. Beijos arrancavam-te as pernas e o sussurrar quase sempre te engolia.
Vinho nas quintas-feiras, traziam danças que o mostro oferecia. Olhos abertos a noite toda diziam que tu sofria. O mostro andava e cuspia, porque sabia que tu te entregarias. Ele te pegaste na quinta avenida, e tu marchaste sem ver clarear o dia... Na noite nada mais te surpreenderia.

Reflexos fechados


E o que diz a árvore ao gafanhoto?
-Abra os olhos e ouça. Deixe tuas mãos deslizarem longe de ti. Ande...
Vá além do que teus ouvidos podem sentir. Permita que teus pés dancem, flutuem...
Sorria com os dedos e mostre aos teus cabelos o quão bom é voar. Sonhe...
Feche os olhos e veja tudo que tua pupila contrai. Abra os olhos e continue vendo, tudo que da tua cabeça sai. Transforme...
Crie ponto nos losangos e jogue tinta. Tinta fresca como o sangue que jorra das tuas veias, do teu coração. Ame...
Contorne os traços no toque das mãos. Sorria com os olhos, troque de coração. Perdoe...
Arranque a mágoa sem medo da solidão. Saia do corpo e da mente. Ilusão?
Olhe para ti. Olhe para ti... És o teu próprio reflexo pedindo para que tu o vejas também de olhos fechados. 

Antropófago de cera.


[...] deixe-se contemplar por alguns instantes. Depois tire-lhe a luz. Transporte o sentir para aquele objeto que transparece fogo, mas nada sente. Faça-o sentir. Faça o sentir e depois apague-o. Deixe-o na dor de não queimar. Faça-o encontrar outras maneiras para queimar. Transporte o teu queimar real, mostre o teu queimar, mas não o queime. Deixe-o lutar, e se preciso for ‘mate-o’. Mostre ao objeto o calor que envolve o queimar, faça-o suar.
Ensine-o a sentir o que tu sentes. Então, sinta mais do que tu podes. Dê vida ao objeto, ensine-o a queimar. Transpasse com um suave movimento de dedos, mas com intensidade, a forma de ascender. Queime teus ossos, não deixe o fogo apagar.
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Lágrimas engasgadas matam tanto quanto sorrisos que a boca dá sem vontade. 

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Guarnecer.


Não é preciso escrever longas linhas, para encantar olhos alheios, já que o encanto começa de ti mesmo.
Um simples sopro no vento é suficiente.[...]
Mesmo não sabendo, não vendo, ele vai. Vai para longe dos olhos, leva o gosto dos lábios que o sopro sugou.
Transpira a saliva que o vento fortifica, petrifica.
Da pedra faz poeira que suavemente com impacto ímpeto faz cair nos olhos, que começam a arder. Mais que depressa as mãos agem, vão de encontro aos olhos agora vermelhos. O coçar acontece. Entretanto não é suficiente. O sinal é dado quando um dos olhos se fecha. Agora é preciso lavá-los com água para que a poeira saia. As pernas agem com sensatez e rapidez de encontro à água. Então, não só olhos, mas todo o rosto é tocado pelas gotas de água gelada. O alívio começa a aparecer. A ardência vai desaparecendo aos poucos. Aos olhos alheios a poeira se perdeu entre as partículas de H2O. Porém, não só os olhos que arderam, mas as mãos e toda a face carregam a poeira, que ficou impregnada entre as unhas e cílios. Sentem o gosto da saliva que o vento carregava, e agora também querem salivar contra o vento- palavras.
[...]

Diluir


Perdoa meus pensamentos, ao redor do teu nome e da tua pele jamais tocada.
Perdoa meus delírios, e o suor escorrendo pelas noites onde os olhos se fechavam na estrada.
Perdoa contemplar-te, mesmo não lhe conhecendo...
Perdoa meu riso, quando te olho em retratos. E toda a loucura que tua cor me transparece.
Perdoa querer-te de longe, sem coragem para chegar perto. 
Perdoa as palavras curtas e objetivas, que meus dedos daqui te jogam. Pois minha boca trava e as palavras com certo medo se calam diante dos teus olhos, ainda não vistos.
Perdoa minha solidão na tua espera, que embora o peito queira, podes não chegar.
Perdoa encantar-me com tuas mãos, e a minha reza para que cultives.
Perdoa a água ardente entre quatro paredes, com tua imagem condensada nos tijolos e, teu fantasma que me perseguindo, sempre.
Perdoa minha utopia deslizando pelas tuas pernas, enquanto meus olhos deslizam pela tua boca.
Perdoa meu viver-te assim de longe, e minha indecorosa lucidez em não te dizer.
Perdoa minha destreza em te sentir, e minha subversão segurando cuidadosamente o teu coração.
Perdoa o meu andar na dissimulação de te encontrar.
Perdoa o som da minha boca, insistindo em sorrir. E todo o caos que envolve corpo, alma, ar, na voracidade dos teus ossos, água e ar.
Perdoa contemplar-te depois de me contemplar... 
Perdoa enfim primeiro amar-me, e continuar sempre, a caminhar.

Cansaço


Lavava o rosto antes de dormir pedindo a si próprio, o socorro. Fechava os olhos antes de cair na cama. O travesseiro molhado contava as marcas do dia: na espera do asfalto.
A noite escrevia sonhos, moldava passos: parados. Nada ia além da chave que trancava o armário.
Nos vidros da janela fechada, refletia a agonia que as paredes contorciam.
A noite amenizava, costurava pontos na pele apodrecida: partida. Como se houvesse sempre a despedida, de si mesmo.
O pé direito ao levantar gritava querendo mudar... Mas a noite logo vinha para os olhos fechar: levar calmamente o acordar.
Cabeça utópica: ar. 
Continuar sempre a respirar. 
-     Não posso tomar muito café [Dizia]. Toda a carne que envolve os meus ossos ardem de desgosto, lutam para que o movimento leve tudo que está intacto. Mesmo que nada esteja... Os olhos insistem em encontrar o que não se vê, ao certo. Tudo no entanto, queima. [...]
-
Me sufoca o peito uma agonia sem igual. 
É como perceber o erro na soma dos catetos e, 
mesmo assim permanecer sem a hipotenusa.

 Negar a resposta é cuspir em todo o caminhar além dos números. 
-

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Passo leve, política, Mudança?


Civilização com memória olvidada em movimento retilíneo desfigurado e, ênfase na holística controversa. Assim é o ser humano em relação á política. Principalmente brasileiros. Que com a mesma rapidez em que escolhem seus candidatos os esquece.
A ‘grande massa’ [como nos chamam] lembra e ‘discute’ [literalmente] sobre política à cada dois anos. Mas a expectativa aumenta à cada quatro anos. Pois, eleições municipais causam mais efeito á população de cidades do interior do nosso país. Afinal, o contato com o político é muito mais próximo, assim, fica mais fácil cobrar o prometido. E não pense que este ‘prometido’, tem relação com a saúde, transporte, que dirá com a educação dos cidadãos. Este ‘prometido’, tem muito [não seria tudo?] haver com os próprios bolsos. As pessoas contentam-se com as migalhas que são lançadas ao vento, e acabam por se esquecer de tudo que o governo poderia fazer e não faz. 
Não há espanto nisso, até porque, a maioria da população se quer sabe quão grande é o poder governamental. Comemos migalhas e arrotamos a melhor carne do mercado.
Então, observando a forma com que a política é tratada em cidades pequenas, podemos perceber como ela é tratada no Brasil inteiro. Afinal, nosso país é constituído de ‘grande massa’. Eleições presidenciais são devéras mais fáceis do que municipais. O Presidente, assim como o Governador, os Deputados e Senadores estão todos ‘muito’ longe da ‘grande massa’, interiorana. Por isso a tal ‘grande massa’ não se preocupa tanto com eles. Vota conforme a política municipal ‘manda’. No entanto, não deixa de tirar uma porcentagem de benefício próprio. O Governo Estadual e Federal estão longe, mas os próprios bolsos estão sempre perto.
A cada ano fica mais difícil encontrar não só políticos honestos, como eleitores honestos. Como podemos querer um Governo sem corrupção, se a grande maioria votante é corrupta? A corrupção não começa no Senado. Começa com a população brasileira que vende o voto, que se contenta com as migalhas. A ‘grande massa’ fica com as migalhas enquanto os ‘grandes homens’ ficam com as cuecas cheias de dinheiro. Então, quando a notícia aparece como um escândalo político na ‘grande emissora de TV’, ficamos todos indignados, por alguns dias, enquanto a TV mostra, depois esquecemos. Esquecemos e não nos damos conta de que o dinheiro na cueca [ou seja lá onde o coloquem] é resultado das migalhas que nos foram atiradas e que aceitamos. Esquecemos e aceitamos as coisas como estão.
Faltam livros nas escolas, ambulâncias nos hospitais, falta muito em todos os setores, e não ligamos... Só não pode faltar o salário mínimo no fim do mês! Esse sim tem uma importância enorme na vida do brasileiro. Afinal, como é que poderemos pagar a prestação da TV nova, ou do carro financiado com parcelas até o fim da vida, sem o bom e ‘velho’ salário mínimo? Como somos vorazmente perdulários! Como somos bestuntos em relação ao consumo. Como aceitamos tão facilmente o que a ‘grande emissora de TV’ diz. Como podemos aceitar a nossa própria manipulação sem nada fazer?
Nosso país cresce aos poucos, enquanto alguns homens crescem muito. E para ‘melhorar’ a apatia populacional só aumenta.
É de enorme consternação ver um país com uma ‘grande massa’ que não vê, não ouve, não fala, não sente nada além dos próprios bolsos; apenas concorda e mantém-se aprazível nos rumos que o país decide seguir. [ou estamos veemente estagnados?...]
Mais do que bons políticos precisamos de bons eleitores. Só assim podemos subsidiar o crescimento do país. Temos de apagar a ignorância misoneísta imposta, e lutar pela melhoria geral do país. Mas antes, precisamos crescer como seres humanos, como cidadãos, como eleitores. Precisamos nos conscientizar, juntar as migalhas que nos jogam para que o governo experimente a grande torta de mudanças que a ‘grande massa’ é capaz de produzir.[...]

Suscitar

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Arrancaram meus olhos e o puseram no lugar da boca.
Para que eu falasse tudo que eu sentia, sem medo do que eu via.
Para que eu falasse tudo que via, com o sabor misturado da saliva.
Para que eu visse tudo o que eu falava, e sentisse como quem via.
Para não engolir as lágrimas que de mim saíam; mas que sentisse a saliva que eu cuspia.
Arrancaram-me os olhos para ver o vazio que eu já tinha.
Puseram no lugar da boca, para que eu provasse o que em mim existia.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Colorindo o vento...

Andava ruas sem fim, procurando o lápis que continha todas as cores. Procurava entre arbustos e flores, temendo que as aranhas o encontrassem primeiro. Obstante caminhou. Caminhou até que os pés sangrassem e as pedras se acabassem diante do chão. Olhar para trás de nada adiantaria, estava muito longe de tudo aquilo que um dia viveu. Tão longe que tinha certa dificuldade em saber o que realmente havia vivido, e, o que era deveras, fruto de sua imaginação. Mesclou o surreal no real, e viveu. Um capricho seu, era encontrar tal lápis. Teria tudo com ele. Tudo! E a ambição de poder ter tudo, fez com que nem ao menos sentisse os pés ardendo em feridas, despejando sangue por onde passava. Não parou. Nem mesmo quando os grilos lhe ofereçam seu Império. Ignorou. 11 dimensões não faziam sentido algum. Árvores e carros de seis rodas não lhe serviam. Queria o lápis. O lápis que continha todas as cores, para assim, colorir toda a sua vida, que á esta altura estava totalmente ausente de cor.
Passou pela estrada de tijolos amarelos, encontrou a árvore com as maçãs envenenadas e por algum tempo, adormeceu naquele veneno. Entretanto, nenhum anão a encontrou. Contentou-se com as cigarras que cantavam as mais belas canções já ouvidas. E, embora desse valor algum pelas canções, insistente que é, as fez cantar a direção de onde se encontrava o lápis com todas as cores. Seguiu tal direção correndo. O corpo não cansava. Contudo, era obrigada a parar, deitar e desenhar escuras flores que as abelhas tratavam de clarear, e sugar a pequena quantidade doce que ainda havia entre seus dedos,  e que ela despejava nas flores que desenhava. Alguns ferrões não inoculavam sua pele, grossa, como casca de angico. As abelhas desistiram, e se foram na direção contrária à que seus pés traçavam.
O sol chorava, derretendo como a boca, quando toma uma sopa quente. A lua, no entanto, mantinha-se sensata, embora às vezes nociva aos olhos noturnos. Mas nenhum dos dois concordava que o lápis pudesse um dia pertencer a tal coração. Que nem sabia-se mais se batia, ou se estava numa esteira: sem perceber o que o alimentava. Era o que parecia. Não só coração, mas fígado e rim transpareciam o mesmo estado: total falta de vida.
O lápis era uma obsessão intensa, que não se importava com o funcionamento dos órgãos; que dirá da fotossíntese que estava bem em sua frente, nas árvores alimentando o ar. Compreensível: quem não entende o que está dentro de si, tão pouco conseguirá entender o que está fora; assim, não valoriza nem o que está dentro, nem o que está fora.
Experimentou as plantas mais amargas, e as frutas mais doces sem perceber a diferença. Parecia que os olhos viam tudo em preto e branco. Parecia que tudo tinha o mesmo gosto. E, mesmo no pólo norte, parecia estar em Cabo Verde. Números não tinham forma, assim como as letras. Confundia ovelhas e nuvens. Mal sabia o nome de cada uma. Mal sabia o próprio nome. Importava-se apenas com o lápis e, podia vê-lo em todo o lugar. Relutava com gravetos, fazendo-os expandir tinta pelos riachos. Certo dia, arrancou o próprio dedo, pensando ser o lápis. Não sentiu dor. Nem falta do mesmo.
Trapos cobriam parte do corpo, outra parte, nua, crua, roçava o chão e delirava-se. Nada tomava os pensamentos além do lápis. Nem mesmo quando encontrou os olhos mais puros, que lhe foram entregues, e, que recusou. Cegueira de tudo. Podiam morrer milhões aos seus pés, que não faria diferença alguma no mundo que criara. E que, era real. Tão real quanto o som que sai da vitrola e encanta as noites de gala em 42, entremeio à torturas que os olhos negavam-se a ver. Não sabia de 42, não sabia de ontem, e pouco ligava para o que acontecia agora. Só importava-lhe o lápis que continha todas as cores.
Tanto importava-lhe o lápis, que, o Sol e a Lua sabiam que nada faria quando o encontrasse. A não ser contemplá-lo. Se preciso, sem dúvida alguma, perfuraria o próprio abdômen para esconde-lo; para torná-lo parte do seu próprio ser. Transformar-se- ia no lápis.
Poderia, em verdade, transformar-se no lápis, mesmo sem o tê-lo. Mas isso jamais passara pela sua cabeça. Não via a própria capacidade de colorir. Precisava de algo que a colorisse, já que havia perdido todas as cores no decorrer da caminhada. [...]
Em certo amanhecer, encontrou-se em vertigem jamais vista, e o que parecia impossível aconteceu: lágrimas escorreram do rosto até a boca, levando o sal aos lábios. Não sabia o que era aquilo e tratou tal acontecimento com indiferença. Mas o sal atormentava seus pensamentos, e não sabia mais se queria encontrar o lápis. Então, deitou-se. Abriu os braços que pareciam estar atrofiados... Ali permaneceu. Sem nada pensar, sem nada saber. Uma vasta ausência de tudo tomou conta de cada poro que respirava. Espaço algum existia, matéria alguma existia naquele momento. O inexplicável aconteceu e tomou conta do explicável. Atirou-se na imensidão do nada.
Morosamente, o lápis com total prodígio, surgiu nos seus olhos. Um sorriso foi o sinal. Com toda cautela encarregou-se de pintar-lhe a pele e o coração. Deu-lhe novos olhos e costurou-lhe um dedo de flores. Fez-lhe roupas de folhas e passou-lhe mel nos cabelos. Os pés e a alma foram lavados com as águas do rio. Limparam-lhe os ouvidos, e pássaros cantavam em lá menor. Margaridas enfeitaram as mãos como anéis. O doce cheiro de canela enchia as narinas. Na boca, cerejas agiam como batom. Nesta altura, o nada estava longe. Foi substituído pelo todo que a cercava, e que havia esquecido. Tudo então fez parte de um mesmo ponto. O lápis apareceu, terminou o trabalho e se foi...
Ao abrir os olhos, estranhou a luz do sol. Tudo estava na mais perfeita harmonia, na mais sublime sintonia. Sentia-se genuína. Regozijava com os pés dançando no ar. Tudo era afável, tudo era motivo para enaltecer. Assim sorria. Assim permaneceu sorrindo... Até que a noite veio e as estrelas encarregaram-se de conduzir as pernas no melhor caminho. Agora, por onde passava, coloria. E, colorindo se foi...

Início da outra rua - mesma.

Fim de tarde gelado, mas o corpo é quente. Talvez isso ocorra devido à quantidade de casacos que tornavam a pele mais macia. Ou, pela alma, que, assemelhava-se às fogueiras da Inquisição. Alma que queimava alegremente, trazendo para o fim da tarde a balbúrdia entre calor x frio. Queimadura de delírios exposta nas folhas secas do jardim. Folhas delirantes! Dançando de mãos dadas com o vento, traçavam nos olhos uma pitoresca imagem, qual foi congelada. O riso escorria pela pele, podia senti r mesmo com tantos casacos tapando o corpo, impedindo-o de também dar as mãos ao vento, e, num gesto demasiadamente promíscuo ser levado pelo vento.
Assim permaneceu. Com folhas nos olhos, com mãos escondidas. Parada, em chamas. Os olhos cravaram-se e mudaram a órbita da visão. Direções sobrepostas agiam como lenha, mantinham o fogo alto: desenhando formas. Assim sorria: uma excentricidade hermética, lutando intensamente para permanecer no chão, como as folhas na praia em meio a uma borrasca. 
Do mesmo modo que lutava para permanecer no chão, relutava para ser levada o mais longe possível. Forjando a viagem inocular dos neurônios, atribuindo a culpa pela partida, ao vento. E assim fez...
Relógio algum fez refém aquele instante. A tarde gelada sentiu falta do calor, e, por ora, entristeceu-se. As folhas que jamais deixaram de dançar, trataram de alegrá-la. E ela, mesmo gelada, sentindo a falta do calor do corpo que já não estava mais ali, tratou de aquecer outros corpos que enganados ou não diante da vida, estavam ali, olhando o fim da tarde. [...]

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nuvem no solo.

Amor é uma porção de partículas densas que se diluem no ar assim que entram em atrito com outras moléculas que despejam a mesma energia que elas no mesmo momento que explodem. Tal explosão, plausível, torna o vento mais leve, as cores mais vivas... O toque lentamente suga os segundos do relógio, semelhante à um buraco negro: suga tudo que os sentidos conseguem capturar, e cria o que eles não podem. A boca saliva intensamente. Como morder um pêssego e deixar a pele aveludar-se. Congela-se então, o exato momento da explosão. O cérebro resguarda cuidadosamente tal momento e, vez ou outra, com freqüência ou, em lentos dias, trata de passar neurônio á neurônio, até que os olhos se fechem mais uma vez, e a mesma sensação que invadiu o corpo na primeira explosão, o invade novamente. Como se uma chuva de pequenas explosões circulasse membros. Pequenos e grandes, cada um com a sua devida importância, cada um lutando para criar uma nova explosão. Cada um querendo ser uma nova explosão. No outro. Em si mesmo...
Como a unha precisando ser mordida e a pele aquecida. Fogo invisível que queima os ossos. As moléculas giram no feixe de luz que envolve os olhos, que ora se fecham, ora se abrem. O suor escorre das mãos e alcança o céu. Suor desenhando nuvens, onde os pés neste instante tocam.
Amor é a explosão mais pura. Jamais extenuante. Amor é a explosão mais pura: explosão interna que se compartilha. 
[...]

Equação. Questão.

Os dias passam como o bater de assas da borboleta que fica por horas parada na parede, como se nada mais importasse. E algo importa?
A importância que atribuímos aos elementos que movimentam a nossa vida, realmente tem devida importância? Quantas horas tem o seu relógio? Quantos dias o teu fígado faz hora extra e o teu cérebro fica à girar? Qual é o teu tempo? Tu sabes o tempo das flores? Quantas primaveras tuas narinas sofreram com o pólen que voava no ar? Quantas margaridas tuas mãos deixaram de colher, de plantar?
Qual é o sentido do teu respirar, do teu andar? Por quê escolhestes a esquerda e não a direita? Fósforo no lugar do isqueiro? Quantas pessoas poderias ter ajudado, e, ao invés disso condenou? Teu corpo precisa de todo o alimento que consome? Tu entendes o teu corpo? Sabe como os órgãos interagem entre si? Sabe como teus olhos olham para ti? Tem uma visão ampla e profunda do que passa diante da tua retina? Entende o olhar da Lua sobre a Terra? E o olhar da Terra sobre a Lua? Por acaso sabe mesmo o que são: Terra e  Lua? Onde você estava ontem a noite que não viu as estrelas? E se viu, imaginou a explosão?
Quantas vezes tua pele ainda consegue se arrepiar com o toque de alguém? E com teu próprio toque? Quantos números de telefone perdeu ou anotou? Quantos dias do calendário na parede funcionam? Quantos você contou, quantos deixou de contar? Nos teus passos, há espaço para observar? Quanto vale a memória do seu computador? Quanta memória você ainda tem? Esgotou? Quantos foram os teus velórios-vivos que você presenciou? Quantos provocou? Quanta vida espalha quando corre pro trabalho? Quanto trabalho tem a tua vida? Quantas respostas levaram um F? Existiram as que mereciam um V?
Quantos corações você esmagou sem perceber? Quanto o teu coração permitiu-se esmagar? Quantas línguas aprendeu a falar? Você entende as árvores lá fora? E as dentro de ti? Quantos cadernos você rabiscou? Quantos rabiscos o vento levou? Sabes o gosto da tua cama, da tua boca? Quantos foram os dentes que você arrancou? Quanta loucuras você pregou? Quanta sanidade você não notou? E as milhões de pupilas que você dilatou? Quantas foram as pessoas que você matou? Quanto arroz você cozinhou? Quanto conhecimento você vomitou? Quanta informação você engoliu?
Do que o teu cachorro gosta? Tua tartaruga não é um cachorro? E aquele peixe querendo comida? Você não respira em baixo d’água? Nem voa nesse vasto céu? O que é esta agulha no lado da cara? Tem pão na tua mesa? Sabe o valor do trigo? E do dólar? Estava na praia há séculos atrás? Onde tu moras quando não tem carnaval? Lê o jornal enquanto descansa? Queres entrar nesta dança? Chá chá chá ou iê iê iê? Quantas vogais tem o alfabeto? E pontos além dos i’s?
Você faz o que você quer? Você sabe o que você quer? Você tem o que você quis? Você é o que pensa ser? Você está aqui ou ali? Você come doce de amendoim? Você se importa com o que você diz? Você diz com o quê você se importa? Você por acaso se importa? Você sabe o que está acontecendo lá fora? Você busca uma vida melhor? O que é uma vida melhor?
Onde estão todos os teus pontos? Você sabe em quem confiar? Você almeja o altar? Cai na entrada do bar? Levita pensando estar a caminhar? Quantas pedras tem na tua rua? Em quantos banheiros você urinou? Você sabe quantos quilômetros teu pulso girou? Quantos foram os elementos que você classificou? Quantos foram os que você desvendou?
Onde está o teu sangue agora?
Quanta importância você congelou? Derreteu? Evaporou?
 -
O azul engole os pulsos,
 faz saltar dos olhos 
o doce mel. 

Abelha na flor
pintando as cores
 do arco-íris.
  
Alimentando a vida 
dentro da embalagem. 

Depois...
Apodreceu tudo. 

Somente o mel manteve-se doce,
enquanto o azul engole os pulsos. [...]
-

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

No olho, furacão.



Será Deus é aquele que desenha as estrelas e vez ou outra acrescenta-lhes uma cauda para que os nossos olhos vidrem no reluzir da noite?
Será que usa saia e cai na gandaia? Ou fica em casa?
Deus, será, nos vigia, diz-nos ‘Bom dia!’ nas manhãs de primavera?
Será que ele diz ‘já era’?
Ele nos salva, mas nos dá tapas na cara; mostra o pecado no fato do rato comer o gato?
Deus cospe chuva, atropela a fervura, cozinha legumes em algum caldeirão?
E se Deus for vegano o que Ele faz com tantos cordeiros?
E se come carne, Ele tempera a alface?
Será que Ele engorda, come torta ou faz yoga?
E se Ele for um cão, dormiria pelo chão?
Se Ele é um mendigo, usa os trapos feridos?
E se Ele tem sangue, se corta com um vidro escondido na estante?
Onde Ele iria, dançaria quadrilha?
Se estiver em uma catedral, me daria algum sinal?
E na internet, mostraria os seus troféus?
E se Ele for surdo, se importaria com os apelos?
Se ele atraído fosse por homem, compraria revistas, trocaria de nome no telefone?
Será que ele bebe água? Prefere vinho, licor ou cachaça?
Ele tem cobertor, geladeira ou aspirador?
E se Ele for um planeta, porque desenha cometas?
Onde está o Seu nariz, será que Deus se contradiz?
E se Ele for rock n’ roll, Hendrix é seu pastor?
Deus anda de carro? Usa chinelo? Veste terno? Anda nu fazendo protesto?
E se Ele estiver no celular, qual número devo discar?
Se Deus exige resgate, o que eu farei quando me encontrarem?
E se Ele é malabarista, eu seria trapezista?
Se Deus for um pulmão, dói quando eu fumo jogando as cinzas no chão?
E se Deus for sexo, se perde em cada excesso?
Será que Ele tira férias, na Jamaica ou na Indonésia?
E se Ele for um afegão, porquê não há união?
Se Ele for o sol ardente, quem será Sirius e Pollux?
E se Deus era Einstein, porquê não falou das cordas, o contraste?
E se Ele dança macarena, eu devo dançar também?
Se Deus for estrada, poderei pisar nela?
E se Ele for as nuvens, onde está quando todo céu está azul?
Será que Deus vai prá faculdade, falta aula vai para os bares?
E se Ele for a lucidez, conseguirei tê-la outra vez?
Se Deus for a loucura, porquê não mostra além da fruta?
E se Deus for um macaco, porquê meu DNA é parecido com o do rato?
Se Ele for aquele outro, quem pensei que fosse é um zigoto?
Será que Deus come pipoca, joga bola e bate a porta?
E se Ele for um sonho, tenho mesmo de fechar os olhos?
Será que Deus é uma arma, escondida, carregada?
E se Ele for a prestação, da mesa ou do fogão?
Deus seria um uniforme, um vestido ou um chicote?
E se Deus tivesse seios, amamentaria?
Se Ele cantasse feito um quero-quero, eu ouviria Ele ao meio-dia?
Se Deus fosse confusão, brigaria até quebrar a mão?
Será que Deus tem uma casa, Ele vive em baixo d’água?
E se Ele for a dimensão, o 3D é a sua própria inovação?
Deus pode ser a fome do moleque que se esconde?
Ele pode ser a riqueza, grandes marcas e sobremesa?
E se Deus fosse famoso, daria autógrafos, esconderia o rosto?
Será que Deus é analfabeto, Ele entende o que eu escrevo, fala dialéto?
E se Deus fosse miséria, tanta gente romperia as artérias?
Deus seria um canudo, para sorver outros mundos?
Se Ele fosse o tempo, quantos anos teria Janeiro?
E se Ele fosse pedra brita, quanto valeria o cimento?
Será que Deus tem olhos, usa óculos escuros?
E se Deus tivesse gosto, cheiro e cor? Qual seria em verdade seu sabor?
Se Ele é vida e morte, onde fica nossa sorte?
E se Deus fosse um cometa... quem o desenhou, tão veloz estrela?

Rodas quentes entre vulcões

De dentro do carro o movimento era mais complexo, tal qual implica a velocidade. Tudo fora dos vidros se transformava e, a cada piscar de olhos uma nova visão se desenhava na pupila, corria pelos neurônios e meu cérebro se ricocheteava entre parietal, temporal e occipital. Frontalmente ele não existia.
Assim, da mesma forma que olhos insistiam para manterem-se arregalados e, apreciar todo aquele novo movimento que se fazia além do asfalto, as pálpebras brigavam para se retorcer, para que uma pitada de pimenta caísse naquele movimento.
É incrível como a percepção de espaço se molda além das rodas. Como ver uma grande bola de fogo voadora, bem acima, entre o nada e uma partícula de hidrogênio a cada m³. Olhar para os pés e ver as árvores que nascem entre a sujeira que ela supostamente esconde. Andar e distribuir arbustos pelo asfalto e nas nuvens também. Lançar-se na direção oposta do vento, deixar os olhos fora de órbita e verificar a veracidade daquele planeta azul.

Sem norte, sudeste e tópicos

É uma mentira cruel afirmar que não somos capazes de tirar a vida de alguém, ou a nossa própria vida. Todos somos capazes de tal ato. Se andarmos na direção oposta nos trilhos do trem, uma hora ou outra bateremos nossa cara contra ele. Por outro lado, se andarmos em frente ao trem, nossos lentos passos permitirão que ele nos passe em cima, e, mesmo que corramos, ele é mais veloz. Há como sair do trilho?
Disseram-me para conseguir uma vaga e desfrutar do aconchego que o interior do trem oferece.
Disseram-me para andar ao lado do trem, sentir o vento passando entre os cabelos e apreciar a paisagem perto da velocidade.
Mas eu, eu prefiro flutuar acima do trem... Vê-lo como uma pequena e indefesa formiga. Esquecer da velocidade, parar flutuando no ar...

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Quero um milhão de flores, 
mil amores e
 um casaco prá esquentar.
Quero um uísque na mala,
 mais um cigarro de palha e
 um abrigo no mar.
Quero um governo mais justo, 
ninguém em cima do muro e 
sair prá viajar.
Quero um abraço de alívio, 
um coração despido e
 numa cama deitar.
Quero olhos de águia, 
uma caneta quebrada e 
papel prá recortar – desenhar.
Quero uma lata de tinta, 
ver a carne apodrecida, 
mas ver também a esperança delirando no ar.
Quero um cadáver e 
a verdade na cara!
O gosto do maracujá e
 aquele velho tabuleiro prá brincar.
Quero um vestido bonito, 
um genro querido e 
uma corda prá enforcar... Dançar.
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Desafina a Severina no mar


As lágrimas aparecem no rosto da mesma forma que os sorrisos.
Há como fugir de todo o amargo que as folhas secas escondem, ou, do pote de mel que escorre além da mesa?
A fantasia que se cria. Que se lapida no mármore. Linhas empobrecidas de folhas. Folhas sem nenhuma linha.
Tu consegues ler? Ver? Olhe todo este branco, apague todos os traços...
Perca-se na branquidão que guarda o espaço de tempo que os órgãos atônitos trabalham. Desenhe-se mais uma vez.
Desvie dos tímpanos o som que vem da sala.
Retire as moscas da boca do menino e ensine-o a cantar. Sol, Lá.
Onde é que você está?
Alguém abriu o livro, terá você coragem de o fechar?
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Eu sei no que você está pensando, eu sei no que vai pensar.
Não fui eu quem estive lá, no entanto, por que me condenarás?
Deixa de bobagem! Vamos fazer as pazes e jogar as pernas pro ar?
Ir até o lado oeste, tirar alguém prá dançar?
Eu sei que você come frutos, e que aquela maçã parecia um veludo!
Sei que você corta a carne e depois tempera os pulsos.
Onde foi parar aquele sangue, e o gosto do som na camiseta?
Brilham os holofotes, no sul cai a chuva forte, bem como tua insensatez.
Vamos fugir na matina e atear fogo na calçada com nossos próprios corpos.
Virar as unhas do avesso, respigar todo o sangue sem medo, e, ouvir mais uma conversa no bar.
Vamos dormir?

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