sábado, 2 de novembro de 2013

.



O ser imóvel de flutuar



Acariciava minhas próprias mãos enquanto observava meus passos vagos, inertes, no mesmo lugar, naquela mesma rua em que outrora sonhava, que outrora cantava, que outrora desenhou o meu caminhar, que outrora... Outra hora... Outra hora na qual fui, pois já não sou. Apenas estou.

Estou em pé feito a árvore sem galhos que tem olhos tão tristes quanto os meus. Ela se parece comigo: eu sem qualquer vestígio de cabelos à cabeça, e ela sem galhos, como poderia então ter folhas para enfeitá-los? . Por isso estou, mesmo não querendo mais estar.

Continuo o caminho que, desde os vinte e tantos anos percorro. As janelas ao meu redor mudaram de cor. [junto com as flores que florescem enlevantes no inverno, quando ninguém espera.] Pintam-nas enquanto nada posso fazer contra minhas rugas, também não quero fazer nada contra. Tudo a favor, sempre a favor de estar: bem. Mesmo que para isso tenhamos de deixar de ser. O importante é estar. Aquela boa aparência que anda com os séculos.

Diziam-me: barba bem feita, gravata cinzas, meias cinzas. Vida acinzentada: pelo clima que molhava-me o terno e pelo cigarro que corroía delicadamente os meus pulmões.

Assim passei os anos a enfrentar meu paradoxo: estar sem ser.

Eu, que na minha agridoce juventude gritava com uma força sem igual: EU SOU, EU SOU, EU SOU! Agora habito em memórias. Melhor assim, não quero memórias póstumas. Afinal não sou nenhum Brás Cubas! Mas, que diabos então sou eu, se já não sou mais o que era e tampouco consigo ser se quer alguma coisa, porque só ando nos caminhos do estar?!

Meus passos param e meus olhos não os veem parar.

Concentro-me então nas lágrimas sem sal que insistem em não escorrer dos meus olhos, porque escorrem em rios dentro do ser que sou, enquanto apenas estou.

Insisto em continuar meus passos feito um bêbado procurando o caminho de volta para casa. Aquela casa igual a um útero materno que nos abriga, nos aceita, nos esconde e nos protege dessa sociedade que mata-nos os ser todos os dias, e nós, quase que inevitavelmente, aceitamos.

Meus passos tremem. Os botões de minha camisa apertam-se estilhaçando todo o meu peito que ardentemente clama, chora e grita com toda a força, mas que silêncio algum haveria de ouvir.

Continuo a andar, a andar, a andar, até que encontro a solução.

E depois de tanto tempo, pareço sentir de facto uma pequena lágrima a debruçar-se em meu olho esquerdo. E então pergunto-me: “tem mesmo que ser?”  E a resposta consegue impregnar o ser no estar: atiro-me entre os carros. Agora consigo ser, pois já estava, morto.

Nasce



O meu nome, o alfabeto, enchiam-se de laranjas.
Laranjas de pedra – mãe. Resplendente decapitada,

A loucura desvairada.
Redundância na contramão. 

Acidez alaranjada

Buscando abrigo na imensidão.

Mil horizontes, 

E o vertical prá contradizer as tuas mãos.

Lança então o teu gosto.
Sorri,
E o engasgado pescoço cospe mais uma vez no chão.

Corre a laranjeira,

Ainda verde o inverno remonta os distantes

Ávidos olhos de gavião.

Sem ave dourada, o Mar engole o meu coração.

Transforma-lhe em ondas, 

Que molham os teus pés,

Tentando apontar uma direção.

Vais caminhar ou não?

E os passos ilimitados




O Sol escorria pela minha face que encostada ao chão, umedecia-o. E a janela tocava delicadamente a cortina que dançava o tango proposto pelo vento, enquanto eu despejava os meus lamentos.

Já não havia mais nada...

Era apenas a lembrança intacta do futuro desejado em um passado que não aconteceu.

Restava apenas Eu.

O Eu raso no espelho profundo, com constelações clareando os olhos, mas sem outro Sol para orbitar.

Já não existia mais lar. Nem existiu.

Tudo eram paredes que cercavam aquele velho ego aprisionado na imensidão do espaço que construí e que tirou minha direção.

Onde estará o Norte então?

O calor do Sul remontava as lembranças que engasgadas ressoavam os ecos da solidão – intacta: feito o retrato amarelado daquele riso escancarado que quase sempre me dizia não.

A vida sempre havia de ser uma negação.

E então, a descoberta...

O Natimorto era eu. Aprisionado nos meus passos que até então congelados, agora derretiam ao som dos acordes do acordeom.

As bombas explodem além da janela.

É, o tango me emociona.  

Ainda há tanto para se dizer – viver.
Continuo a escrever.

Rua, gelo e solidão



Fazia frio e janeiro já estava longe. Estava em outro ano que não era este em que a lembrança daquele janeiro saltava entre meus olhos e escorria pela minha face feito neve derretendo para dar espaço ao sol, rendendo-se ao seu calor e desfazendo-se de si mesma para enfim recomeçar seu ciclo.

E com este pensamento sorrio entre as lágrimas que engasgadas tentam mastigar o presente que vive em lembranças de um passado que não tenho certeza se existiu.

Mas sei, fazia frio.

E meus ossos contraiam-se a cada passo entre as calçadas congeladas e os bordéis quentes, que não há dúvidas, eu bem sei, só existem em Paris. [E] aí, nesse espaço tempo onde a solidão não media distância para fazer-me cair ao chão, engolia as lágrimas que hoje chovem rios nas rugas de minha face.

Então adormecia, congelava, derretia.

Lembro-me dos chutes e de ser arrastado junto com a fumaça. Do calor que embaçava a vidraça daquela janela que sempre me foi negada, era intacta... Longe, Distante. Dois olhos brilhantes no segundo andar sem me olhar.

Por isso feito Rimbaud eu insistia em caminhar na vastidão do sonho imperfeito que minh’alma insiste em alimentar e que ainda hoje castiga o meu respirar...

Até quando ei de hesitar?

Pergunto aos meus olhos, pois com eles refletidos no espelho ainda me reconheço: carregam o que fui, mostram o que sou e, fechados, esquecer-se-ão do que jamais serei...

Mas sempre saberão: sonhei.

La revolución. (aham)



Encontre a sua bandeira nacional que esta guardada desde a última copa.

Se não encontrá-la, agarre a do seu time do coração, pode usar aquela sua toalha de banho, mesmo!

Não encontrou?

Pegue então, qualquer objeto que faça barulho, um apito pode ser. Precisa de algo que chame a atenção também; um nariz de palhaço, pintar a cara! Ótimo.

Mas se não encontrar nada disso, não há problema, afinal, já está disponível no mercado o kit revolução. Está?

Por isso, Seja o que tu és! Pegue o que tens, faça cartazes, placas, pinte a cara, grite bem alto! Lute! <Viva!>

Porém Lute consciente. Procure conhecimento... Vá muito mais além, procure olhar o outro. Se ‘não’ tens causas para lutar, procure ouvir as vozes emudecidas que no meio deste caos são escondidas. Não procure uma camisa para vestir, enquanto tantos outros não tem sequer uma para usar...

Sabe qual ‘bandeira’ levantar?





Encontre a ‘sua’ bandeira.

‘Se não encontrar, permita que o outro viva o direito de lutar, inclusive por você.’

Mas saiba: talvez o outro não esteja lutando de fato por você.

-


Deixem os sapatos e corram descalços
Não há nada que prenda o coração
Se não o desejo de percorrer outra direção
Liberta assim os teus passos
Pois o que buscas estará sempre em tuas mãos
Deixem os sapatos e corram descalços ou então
Apertem bem os cordões
Ninguém pode lhes convencer
 daquilo que não podem entender


Á Liberdade.

domingo, 27 de maio de 2012

Papéis escondidos, sentidos


E não há nada que se possa fazer. Você escolhe e define o gosto que pousa leve na sua língua úmida, de desejos – de viver [?]
E é assim. Corre. Vai. O A-lém está bem aqui!
E não há nada que se possa sentir, que já não esteja dentro de ti.
Seu ar escorre entre tuas veias e leva o sangue quente que ferve ainda mais o coração.
O pássaro voa, você permanece assistindo tudo com os pés no chão.
Não há nada que te faça voar, tuas mãos desconhecem o gosto intenso no prazer de tocar, a ti.
Então foge enquanto sorri juntando as mentiras que te fazem imergir – o teu sonhar sem agir.
Fácil como a cortina dançando com o vento.
E não haverá som algum que desperte o teu pensar, enquanto teu silêncio não conseguir falar.
Tua voz crua e pura convida os passos á gargalhar.
Os dentes secos almejam a saliva que esquenta o ar.
Por quê você insiste em caminhar?
E não há lugar algum que se possa descansar. Teus passos pesados afastam toda a sombra que pode inundar teu céu, teu mar e o teu ar. Teu termômetro está sempre no mesmo lugar.
A escuridão nos teus olhos, tu permanecerás a alimentar.
Não haverá sabor algum que teus delírios consigam tocar. Pois teu gosto se esconde nos cheiros amargos que lança o perfume eclodindo impuro o girar do ar.
Os ouvidos não mastigam a saliva do respirar – amar.
E nada fará teu coração pulsar nas manhãs de domingo enquanto os olhos fechados dos sábados sustentarem o impulso que se prende feito lago se negando a encontrar o mar.
Os sais dos dias adocicam os olhos, condensam forte-leve insistindo em libertar.
E não há nada que te faça escravo se não a vida escorrendo longe das tuas mãos. Teu alívio no fim da tarde mostra forte a ilusão.
A estrada é a mesma e os pés dizem não.
E não haverá nada que não lhe mantenha vivo, independente da tua percepção
.
Os pontos de partida e de chegada se estendem próximos da tua imensidão, interligados e conexos com o sim no teu não.
Diz-te se é orgânico o material que constrói as paredes do teu coração?